Wednesday, March 25, 2009

O passado faz o presente


A velha premissa de que aprendemos com os nossos erros é, na verdade, uma sábia e cômoda forma de dizer que nosso presente está intimamente ligado com o nosso passado. Ora, isso não é difícil compreender em nível individual, e está no nosso cotidiano. Se a forma com que você estudou para o vestibular não fez você passar, no ano seguinte a estratégia e a dedicação têm de ser outra. Se a cantada não conquistou a moça, o rapaz tende a mudar suas palavras e sua forma de interceptação. Se aquela empresa deu prejuízo, a aposta na bolsa de valores deverá ser mais criteriosa da próxima vez. Se o bebê toma choque com o dedo na tomada, é difícil que ele se meta a repetir o erro! Exemplos clássicos e corriqueiros. Nenhuma novidade até aí.

Na verdade, novidade nenhuma em parte alguma dessas linhas. Apenas uma interpretação de ocorridos na atualidade e que não conseguimos fazer analogias com os exemplos citados. A história do mundo, em sua complexa linha estrutural, nos atinge em cheio no presente. Seja para nos deixar viciados, seja para nos deixar alerta, seja para nos acomodar... enfim, nos afeta. E o que poderia ser bom, é visto como ruim.

Vila Velha, Espírito Santo. Jovens da rede estadual de ensino protestam pelo incremento da carga horária das aulas, que foi aumentada em uma hora. O protesto é incômodo: palavras de ordem, cartazes, faixas, apitos... parecem militantes natos de um movimento social politizado. Quem dera o fossem! Estão lá pedindo para o governo voltar atrás em uma tentativa de dar um primeiro passo, mesmo que muito pequeno, em direção a priorizar a educação pública no país. O argumento dos alunos é o de que muitos trabalham e estão chegando atrasados no emprego. Vêem a contradição? Eles estão na escola para que consigam, no futuro, conseguir um bom emprego. E quando o governo colabora com essa formação, incrementa a política social, é criticado. Muito mais fácil seria que a manifestação fosse em prol de um diálogo entre governo do Estado e as federações da indústria e do comércio para que colaborem e não descontem dos pagamentos dos jovens (coisa que a Secretaria de Educação já diz estar fazendo). Mas é fácil entender este fato mediante décadas de descaso com a educação... um momento de inflexão como este é sempre um incômodo para os que o sofrem. Que Cristovam Buarque não tome conhecimento do ocorrido! Assim, em seus gritos e devaneios, os estudantes reclamam que não foram ouvidos e que o governo foi vertical em sua decisão. Discordo pelo simples fato de verticalidade significar tomar uma decisão sem consulta. Pois bem: o clamor por educação pela sociedade brasileira dispensa qualquer consulta, apesar de, além disso, sabermos da existência de um conselho de educação em que conta com representação da sociedade civil.

Outro fato interessante. A Igreja tentando influenciar na política. Como aceitar que uma instituição que, quando detinha um poder político absurdo, como na Idade Média, abusou do bom senso em nome de uma moralidade cristã e fez atrocidades, enriqueceu com o dinheiro das indulgências, matou quem a questionava ou quem queria dar uma explicação um pouco mais racional às coisas? Pode-se argumentar que o clero daquela época nada tem haver com o atual. Concordo. Só que enquanto Instituição, a Igreja perdeu credibilidade, assim como o absolutismo, e as nações, para prevenirem-se disso, instituíram, especialmente no ocidente, o Estado laico como premissa. Não adianta esnobar a opinião do Presidente da República dizendo que ele precisa de um assessor de teologia para que ele tome a decisão de culpabilizar ou não um médico que necessitou fazer um aborto de gêmeos numa criança de 9 anos, sob o rico de morte das três crianças. A Igreja tem, sim, o direito de ser ouvida enquanto parte componente da sociedade civil gramsciniana (e o é, tendo em vista a participação de suas entidades em conselhos gestores espalhados por todo o Brasil, por exemplo), mas não deve achar que pode impor sua política cristã na política contemporânea. Portanto, o Papa ir ao continente africano clamar pelo fim da propaganda do uso de camisinha, num continente em que 1/3 da população tem AIDS é um pouco de soberba demais. O Estado não mais a ouve como antes. Na verdade, ela, a Igreja, já não é mais tão Estado, como antes. Mas isso, ela ainda não entendeu.

Outro ponto definitivamente conflitante é a questão de cotas em universidades públicas. Vejam, não creio que devemos culpar todos os brancos em nome de um passado cruel que estes proporcionaram aos negros. Mesmo porque “branco” é uma raça em processo de extinção no Brasil. Aquele que não tem negritude correndo em seus vasos sanguíneos, dê a primeira chibatada! Concordo, porém, com a culpabilização das elites pelo estado miserável que vive o pobre hoje em dia. E não digo isso em nome de uma hipócrita opinião socialista. Digo isso em face de uma história em que foi dada ao rico a chance de enriquecer mais, e ao pobre a chance de não enriquecer nada. Ora, ambos agarraram suas chances e fizeram delas maravilhas. Hoje, o quadro é esse. Não culpo a consciência do rico. Não poderia ele ficar pobre, abrir mão de sua riqueza, em nome dos milhões de pobres que o país carregava. Culpo o Estado por não entender que a Declaração Universal dos Direitos Humanos dá a todos os cidadãos a mesma importância, mas quem deveria prover isso era ele próprio: o Estado. Assim, diante de uma história de descaso com a questão da pobreza, determinar cotas para pobres na universidade é inconstitucional para os ricos, já que esta dá a todos os brasileiros as mesmas condições para ingressar no ensino público superior. O engraçado é que durante todas estas décadas não se ouvia dos ricos que a exclusão social, a pobreza, a fome, a exploração da mão de obra, a desigualdade socioeconômica, o racismo, tudo isso também era inconstitucional. Mas a conveniência, meus amigos, é a melhor de todas as propulsoras de reivindicação de direitos! Sob a ótica do pobre, ter vagas separadas para a classe é proporcionar um atalho ao longo e pedregoso caminho da inclusão social. É fácil para um rico, que procurou o ensino privado durante toda a vida, valorizar o ensino superior público quando este é melhor. Afinal, o que se argumenta é que o governo deveria investir mais no ensino fundamental e médio para que não houvesse necessidade de determinar as cotas. Vêem a conveniência? Antes, quando não havia as cotas, não havia ricos reclamando por melhoria do ensino público de qualidade. Agora há! Há de melhorar o ensino público de base sim, mas, como vimos nos parágrafos acima, a população, em especial os estudantes, não acostumaram com essa idéia.

Na saúde pública a situação não é diferente. A medicina curativa, patrocinada pelos grandes laboratórios, indústrias farmacêuticas e tecnológicas, sempre se mostrou eficaz na assistência curativa e inútil na prevenção das doenças. É óbvio que o ideal seria que as pessoas não adoecessem, para não precisarem de assistência médica com tanta freqüência. Demorou um século inteiro para que se implantasse uma idéia revolucionária no Brasil de um programa nacional que incentivasse uma medicina que promovesse saúde e não curasse doenças – o Programa Saúde da Família. Os gastos diminuiriam, a população seria mais saudável, os profissionais seriam menos frustrados. Mas isso não ocorre. A população se acostumou com o que viveu durante toda a história: uma cartela de remédios, um exame de alta complexidade, uma cirurgiazinha básica para “melhorar” sua saúde. Os profissionais também, acostumados com as máximas da eficiência e eficácia defendidas pela medicina curativa, não absorvem com a devida postura a necessidade de se investir nessa idéia. O Estado, então, por pressão tanto da população como das classes profissionais, uma pressão veiculada por uma mídia que cansa de mostrar que não entende nada de saúde pública, investe astronômicos valores em hospitais e especialistas, e põem em secundo plano aquilo que constitucionalmente deveria ser prioridade: a atenção primária. A consciência coletiva sobre saúde como ausência de doença é uma lástima que possui uma saúde de ferro, e deve, infelizmente, sobreviver por mais décadas e décadas.

Poderíamos ficar aqui descrevendo centenas de outros exemplos de como uma história marcada pela opressão e pela exclusão afeta em cheio os habitantes do presente. No Brasil, principalmente, já não é uma desculpa plausível dizer “temos uma democracia muito jovem para que possamos ver as mudanças no ideal e cultura política de nossa sociedade”, como era de praxe ouvir. Já temos quase 25 anos de democracia. Mas como esperar uma sociedade ativa e propositiva diante do histórico processo multivariado político que viveu o Brasil. Ditadura, democracia, ditadura, democracia tudo isso banhado por alguns “ismos”, como clientelismo, populismo, assistencialismo, coronelismo, desenvolvimentismo... tantos fatores negativos tinham que gerar um “ismo” central pela população: ceticismo.

Tomara que a história que descrevemos aqui como pedra no caminho de nossa nação seja substituída pelo presente atual, que já é história. Espero poder ler um texto, de preferência do meu filho, dizendo que as décadas de 1990 e 2000 foram marcadas por inflexões não muito exitosas no caráter político-social da sociedade civil brasileira, mas que graças a essas inflexões, começou a ser gerado um novo idealismo social, capaz de substituir o ceticismo por esperança, e, posteriormente, substituir esperança por satisfação. Mas sem nunca deixar de lado o pensamento de que participação é conquista, e não dádiva, como nos diz Pedro Demo, e por isso exige reivindicação constante, e não um outro “ismo” indesejável: o conformismo.

Wednesday, January 23, 2008

A difícil tarefa de viver as facetas da vida

Não é fácil ser “ser humano”. Nossa vida é repleta de sinuosidades, temperamentos, intempestividades. Aprendemos sempre a nos dar com nós mesmos, numa verídica faculdade, onde a aula é integral – 24 horas por dia, durante toda a vida -, o professor é o nosso próprio eu, (ou melhor, “eu´s”) e fazemos avaliações a todo o momento, com avaliadores severos, externos a nós. São os outros “eu´s” avaliando os seus “eu´s”. E as reprovações são muitas.
Uma das “matérias” que mais reprovam nesse meio é a questão relativa ao humor. Não há no mundo uma maior falha humana do que aquela que ocorre quando deixamos de ser o que éramos: seres mais felizes. Perdemos pontos de todos os nossos avaliadores. Parecem-lhe inadmissível que uma pessoa tão bem humorada, bem disposta, extrovertida e agitada tenha se tornado uma pessoa calma, reclusa no seu próprio abismo pensante, às vezes (nem sempre) indisposta e quieta. A recíproca não é verdadeira. Não passa pela cabeça dos avaliadores que esse indivíduo está com problemas. Ouvem-se cobranças do tipo “você não era assim” ou “noto que não queria estar aqui conosco”. Cobranças são sempre bem-idas, mas nunca bem-vindas.
Tem-se que entender melhor que os humanos são totalmente (e se houvesse uma palavra mais completa que essa ela deveria ser usada) influenciados pela completude das coisas que o rodeiam. Muda-se de ambiente de convívio, menos espaçoso, menos libertário, mais apático e mais impessoal, muda-se as compreensões de sua vida, as oportunidades fogem como seres alados, aumentam as necessidades, agita-se o espírito e chora a alma. Tudo gira em torno de vários giros em tornos das pessoas que o cercam. Tudo é uma rede de convivência entre humanos e não-humanos, que se transformam e transformam-se entre si, como bem expõe Bruno Latour.
A cobrança, a meu ver, é um instrumento que necessita de um pré-instrumento. Ao cobrar, o avaliador deve ter dado condições para que o indivíduo cobrado tenha tido a chance de não precisar ser cobrado. Uma mão, um sorriso, um não-cobrar...

Monday, January 14, 2008

O Natal
Então, foi Natal. Que bonito. As famílias se encontrando e comemorando... comemorando o que mesmo? Ah sim, desculpem: comemorando a época do presenteamento universal(1). E o comércio, como efeito cascata (de dinheiro), comemora um dos anos mais rentáveis para o setor. Ótimo... e viva o Lula.
Pois bem, como eu ia dizendo, o Natal é uma época linda. Nessa época, segundo as próprias pessoas, um espírito de solidariedade ronda os ares de todos os lugares. As pessoas saem por aí fazendo, dentre outras coisas (como comprar, beber e viajar), o bem. Matam a fome das crianças, sendo que ainda há os que, além disso, dão presentes pra elas (as lojas de 1,99 que o digam...). Ajudam famílias necessitadas. Saem das suas confortáveis casas e visitam (nessa época) os bairros mais pobres, mais carentes, mais miseráveis... aqueles bairros cujos nomes todos se perguntam ao ver escrito no itinerário do ônibus cheio de pobres: “Onde fica essa ‘croca’?”... e que quando descobrem onde fica as crocas da sua cidade pensam (não falam): “Putz... isso é um bairro?”. “Ainda bem que só há um Natal por ano.”(2).
Retorno à idéia principal: o Natal é lindo. E com essa era de conscientização sobre preservação do meio ambiente então, nem se fala. Árvores de natal manufaturadas com frascos plásticos descartáveis de refrigerante estavam presentes em todas as cidades, bairros e casas. Coisa linda de se ver. O brasileiro sentiu-se orgulhoso de tanta conscientização. É uma pena que nessa época linda o consumo de refrigerante aumente possivelmente na mesma proporção do que as quantidades de frascos utilizadas para construir as árvores. E como se não bastasse, segue um diálogo entre eu e meu pai, em frente à árvore de Natal de garrafas descartáveis do meu bairro:
Eu – Pai... quando vão retirar essa árvore daí?
Pai – Acho que essa semana, depois do dia 06.
Eu – E o que vão fazer com esse monte de garrafa?
Pai – O presidente da associação do bairro me disse que vão jogar no lixo.
No lixo. Exatamente. Deu trabalho para crianças e artistas, ficou menos bonita do que uma típica árvore original de pinheiro, e ainda por cima vão devolver ao lixo aquilo que este nos cedeu com tanta graça, com tanta alegria e com tanta esperança de que não voltassem. Não é difícil generalizar o caso do meu bairro para o resto do mundo. Mesmo porque, o que fariam com tanta garrafa durante o ano todo? Mesmo que guardassem para o próximo natal, que fim daríamos para todas as garrafas que serão produzidas ao longo desse ano? Deixa pra lá... formas sustentáveis de reutilização de plástico e outros lixos existem e já foram mostradas. Não é neste blog que estará a cura para a bronquite crônica do planeta Terra.
O que é isso, gente? Natal é época linda sim. A época do nascimento de Jesus. A religião deixa o período de hibernação e esquenta o coração das pessoas(3).
Natal também é época de se escrever textos que falem do Natal, para o bem (como este) ou para o mal. Também é época da Simone ganhar dinheiro com aquela velha música “Então, é Natal...”. Corais cantam músicas natalinas, operadoras de celulares vendem toques natalinos, as propagandas na TV só se referem ao Natal e o Willian Bonner destina metade do Jornal Nacional para falar de compras, papai Noel, solidariedade e, claro, troca de presentes no dia 26 de dezembro.
O Natal é lindo. Mas acho melhor parar por aqui.

(1). Entende-se “universal” como um conceito restrito enquanto ato, mas completo enquanto idéia lançada à sociedade.
(2). Esse pensamento pode ter se dado logo após o pensamento anteriormente citado... ou não... pode também ter sido o primeiro e único pensamento pensado.
(3). Religião não se discute. Um parágrafo de duas linhas é suficiente. Sei que todos os cristãos foram à Igreja neste Natal e viram a missa do Galo do Papa na TV.

Wednesday, November 14, 2007

O retorno

Doze anos depois, deparei-me com uma revistinha da Mônica. Achei fantástico... afinal, ando lendo tanto sobre coisas que na minha época de "gibizeiro" considerava o cúmulo da hiper-chatice que adorei a idéia de voltar no tempo nas páginas do Mauricio de Souza. Lembro-me que naquela época, quando cursava a sexta série do ensino fundamental, antigo primeiro grau, nossa professora de português reservava as aulas da sexta-feira para que lêssemos textos ou apresentássemos pequenas peças teatrais para a turma. Sempre (SEMPRE) fazíamos teatro, eu e meus colegas da época... Hugo, Bruna, Geraldo... outros que não lembro o nome, e que possivelmente não lembram de mim também. Pois bem... éramos felizes... as estórias das revistinhas eram facilmente retratáveis em pequenas peças teatrais, que tiravam gargalhadas da turma e suspiros de orgulho da professora Firmina. Chico Bento, Mônica (que achava realmente chata), Cebolinha, Magali e Cascão... estes dois últimos, meus favoritos. Fora os coadjuvantes: Franjinha, Penadinho e sua turma, Anjinho, Horácio, Pipa, Tina, Rolo. Todos tinham lugar nas peças, até os cachorros... o Bidu, do Franjinha, e o surreal Floquinho, o estranho cachorro do cebolinha. Nostalgia pra dar e vender...

Mas deixe-me voltar ao fato atual. Abri a revistinha e deparei-me com uma grande carga de modernidade. De cara uma estorinha (aquela de três quadrinhos na última página da revista) onde Mônica e Magali falavam do novo celular que a Magali havia comprado e que fazia de tudo. No meio da revista, a estória de Pipa e Tina, em que Pipa havia feito um curso de costura pela internet e queria costurar um vestido pra Tina (que, diga-se de passagem, está menos bonita que antigamente). Depois uma mega estória da Dona Morte contando estórias pras crianças da turma do penadinho que parodiava as super atuais estórias do Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado. E pra finalizar, a estória do Anjinho, que perdeu seu posto de protetor da vila para um robô anjo, porque São Pedro queria modernizar o céu com computadores e anjos programados. Tudo isso me causou um sentimento rotineiramente citado no mundo contemporâneo. Esse mesmo sentimento que nos faz relembrar nossa infância ao criticar a infância atual. E me vem a pergunta: foi o mundo que causou tudo isso, ou foram nós mesmos que construímos esse “brilhante” mundo tecnológico para nossos filhos? Sem usar de positivismo ou maniqueísmo dicotomizante, penso que houve um mutualismo de forças. Os pais, querendo o conforto que não tiveram na infância, influenciam as decisões e escolhas dos filhos. E obviamente, o mercado faz questão de atender essa nova era tecnológica da melhor forma cabível: produzindo cada vez mais tecnologia.

É assim com tudo: Bola, só se for jogar futebol no play station 3 (existe algum mais novo?). Carrinho, só se for controle remoto, que pisque o máximo possível. E no mais, internet, internet, internet. Namoram mais cedo. Começam a se preocupar precocemente pela beleza padronizada e futilizada do mundo da moda e da etiqueta (baaah, pra Glória Kalil). Perdem o precioso tempo que têm pra brincar. Penso que hoje os pais reclamam que antigamente não tinham tempo pra brincar, pois eram tempos mais difíceis e tinham que trabalhar cedo. No futuro, essas crianças dirão que na época de suas infâncias não podiam brincar, pois estavam preocupados com o mundo ao seu redor.

Queria ver meus filhos apresentando teatrinhos da turma da Mônica pra seus coleguinhas... mas como, se quando eles estiverem com 10 anos, estarão com chips em seus braços, e tecnologia em suas mentes, desenvolvendo protótipos para brincar com algum reality show?

Monday, February 12, 2007

Aniversário do Futuro improvável
Imagina... 12 de fevereiro. Acordo feliz, pensando que 24 anos de vida é uma vitória. Levanto cantarolando, ensaio danças enquanto escovo meus dentes. Faço meu lanche batucando com os talheres na mesa da cozinha. Ponho uma música no som do quarto e me troco para ir à faculdade. Pois isso se chama felicidade.
Várias pessoas passam por mim na rua e não sentem minha euforia. Algumas, que me conhecem, passam. Apenas passam. Não que eu exija delas que passem ao meu lado com aquele sorriso às vezes sincero, às vezes forçado, às vezes falso, e às vezes, que ironia, um sorriso triste. Pois bem... neste caso, nenhum tipo de sorriso. As pessoas simplesmente passam.
Na hora do almoço, sento, só, numa mesa, para almoçar no restaurante da universidade. Estou lá, comendo aquela apetitosa azeitona com caroço, quando uma turma de rapazes arrastou a mesa ao lado e juntaram-na à minha. “Querem sentar-se juntos”, pensei. Sim. Eram oito rapazes e 7 cadeiras vagas. “Irão pegar uma nona cadeira na mesa de trás”, pensei. Não. Os sete rapazes sentaram-se, enquanto o oitavo sobrepôs sua bandeja sobre a minha, arrastou a cadeira que eu estava sentado, e sentou-se, não sobre mim... não em cima de mim. Ele sentou em mim, ultrapassou aquilo que chamo de carne e ossos, e que ele, a esta altura, chama de “nada”, e assentou-se à cadeira, e começou a comer.
Fiquei por alguns minutos parado, observando o interior do cérebro do rapaz, que inclusive viria a morrer de um aneurisma que eu, mesmo não sendo médico, notara em seu lobo occipital. Mas ainda estava embasbacado. Tudo me reconhecia: A escova de dente, os talheres do café, as chaves que abriram para mim a porta e o portão de casa, a bandeja do restaurante, até a mesa e a cadeira. Todos me reconheciam, todos os objetos. Realmente seres humanos não me viram. Não havia conversado com ninguém e por diversas vezes fui ignorado, tanto na rua quanto em ambientes públicos da universidade.
E engraçado como o rapaz viu minha bandeja, e colocou a dele sobre a minha sem questionar nada.Assim, passei o resto do dia. Num universo paralelo. Uma forma de não ganhar “parabéns”, de não receber abraços, de não contar às pessoas como é ter 24 anos, uma forma de não comemorar com seus amigos mais um ano em que vivo neste mundo. Ainda bem que isso acontece apenas no dia do aniversário. Já no dia 13 de fevereiro, escuto “Onde esteve ontem?” E todos os parabéns, todos os abraços, todos os sorrisos verdadeiros ressurgem. Apenas não acho a Vitória. Hoje é seu aniversário e queria dar um abraço nela. Acho que vou deixar para amanhã.

Thursday, February 08, 2007

CONTE PIADAS
João caminhava em direção à sua casa quando lembrou-se de uma piada que um amigo havia lhe contado em algum lugar, algum dia, em alguma ocasião, por algum motivo desconhecidamente esquecido. Foi tão fundo na lembrança que começara a rir, sozinho, no meio da rua... não aquelas risadas que se dão gargalhadas e que tornam-se motivos de chacotas por parte de quem vê... Era um sorriso mimoso, seja lá o que isso signifique, mas a palavra caiu bem para a singela atitude do rapaz. João estava aí, na calçada, caminhando, com os lábios esticados por uma vontade saciável de rir, mas ele não queria saciá-la. João riu... foi esticando os lábios até que expirou bruscamente com as narinas e, desse fato, mostrou-se os dentes. O riso estava completo. Andando ao lado dele, em direção igual e sentidos opostos (bendita física), Marilda, que não lembrara-se de nenhuma piada, fato, acontecimento, ou qualquer outra coisa que a fizesse dar uma risada como a de João, apenas olhou para o rapaz... e riu, pelo simples fato de ver alguém, sozinho, andando na rua, e rindo de sabe-se lá o que. Achou tão engraçado que começou a rir também, na mesma lógica do passo a passo: Esticou os lábios, expirou bruscamente, como se estivesse tirando algum alergênico do nariz, e mostrou os dentes. João, a essa altura, ainda estava rindo, mas estava longe. Marilda, ainda rindo, encontrara com Gabi, que estava, inclusive de nervos agitados, devido à tão difamada, estúpida, TPM. Mas, ao avistar tamanha audácia, uma pessoa rindo sozinha na rua enquanto ela mesma sentia-se mal-amada, parou para pensar "do que diabos está rindo essa rapariga?" E sacramentou os gestos corriqueiros... Blá, blá, blá, e zupt! Dentes à mostra... Daí, encontrou-se com Fabrício, que encontrou com Ronaldo, depois Agatha, Fernanda, Thiago (claro que sempre haveria de ter um thiago na estória... e com 'th', óbvio), Francisco, e foi se disseminando para Willian, Jhon, Peter, Amelie, Franchescco, Fridrich, Van der Ghotem, Manoel, Henricco, Kasaka, Okosuma, Guentchov, Mamula, Mohamed, Shuala, Gohan, até chegar em... João.
Conte piadas.

Wednesday, January 24, 2007



Que se torne branco tudo aquilo que valer à pena o homem não ver, ignorar. Assim... o branco, mesmo que alvo, existirá... pelo simples fato de ser intocável pelo ser humano.

Saturday, January 20, 2007

Mundo Esférico

Existe uma distância tão grande entre meus "eu´s" que eles se encontram num ponto em comum: Eu mesmo.

Wednesday, December 27, 2006

Sinto em mim uma dependência. Uma tendência ao "euísmo", uma pendência ao "outrismo". Sinto em mim uma dependência de mim mesmo, com fugas ocasionais. Ao invés de euísmos e outrismos, quero tranquilismos, sensatismos e certezismos. Chega de abismos...

Monday, October 16, 2006

Quem somos? Aí vai a minha inútil opinião...

"Somos nada mais nada menos que um quinze-avos daquilo que teríamos a capacidade de ser se fossemos fortes o suficientes para buscar o que queremos ser."
VEJAM... ESSE SOU EU.

Eu sou o que quero para mim
Eu sou o que querem que eu seja
Eu sou aquele que falta muito para ser algo
Eu sou aquele que já fez tanto que já é muito
Eu sou a melancolia em pessoa
Eu sou a alegria que entoa cantos de alegria
Eu sou poético, hematopoético, caquético, hermético, médico
Eu sou figura retorcida pelas mentes abstratas das pessoas inexistentes
Eu sou um complexo de incógnitas
Eu sou Feliz, triste, espontâneo, introspectivo, bonito, feio
Eu sou o que interpretam que eu seja
Eu sou 6 bilhões de "eu´s".
Ah! Quanta Vontade!

Posso eu, em outra vida, se é que haverá outra, escolher meu ponto de equilíbrio? Poderei eu desfrutar da plenitude fraternal, da plenitude pessoal? Poderei eu ser quem eu quiser ser... sem me prender naquilo que querem que eu me prenda? Poderei sair do meu mundo, de vez em quando, para comprar um pouco de esperança no universo ao lado, se é que precisarei de esperança? Consiguirei serguir os caminhos que aparecerem na minha frente ou poderei eu ter a satisfação de ver os caminhos tendo de escolher entre eu e outro ser? O ser humano já sofreu muito nesta era... ela podia acabar logo, para começarmos a nascer denovo, viver denovo, e morrer melhor.
PROFESSORES DE NÓS MESMOS

Aprender. Aprender sempre. Melhor que isso é saber que somos nossos prórpios professores. A vida é nossa sala de aula e nossos recursos (auto)didáticos são, principalmente, os erros: Nossos erros e os erros dos outros. Podemos perceber através de nós mesmos como somos professores obsoletos e nada didáticos. Pra começar, para você aprender com seus erros (chavão ou não, é assim que é), temos que, antes, reconhecê-lo como erro e não como uma simples falha do seu sistema universal e intransponível de acertos. Depois, após esta difícil arte de reconher que somos seres humanos, temos que perceber aonde foi que erramos. Onde foi que deu errado. Ah, estamos começando uma belíssima caminhada... a de acertar da próxima vez. O problema, é que nos fixamos apenas nos 'erros' e nos esquecemos dos 'quase-erros' que por descuido tornam-se erros banais. Aí recomeça o ciclo. Sobre o "aprender com os erros dos outros", não vou entrar neste mérito. Ainda não sou um professor de mim mesmo capaz de utilizar este recurso didático.
A FOME DO COMPLETO
Nem só de pão vive o homem, mas de tudo mais. Vive ele de comida, vive ele de alegria, vive ele de prazer, vive ele de cultura. Amor, paz, soberania, autonomia... Enquanto houver homem, haverá complexidade. Eis o ser que merece todos os olhares possíveis: A biologia tenta vê-lo como um emaranhado protéico, uma "reação" ambulante... As ciências sociais tenta vê-lo como ser, oras, social! Uma metamorfose cultural ambulante,,, Sim... somos tudo isso... A terra ficará mais fácil de se morar quando nela houver pessoas que percebam o que são: seres sociais, antropológicos, psicológicos, biológicos, ecológico... lógico! Enquanto houver partes, não se verá o todo. Enquanto o biólogo estudar apenas o biológico e o cientista social estudar apenas o social, não seremos, verdadeiramente estudados, compreendidos... O homem se conhece pouco... eis uma das justificativas... Não sabemos quem somos, por que não sabemos ser.

Wednesday, July 12, 2006

Rotinas

Abro os olhos.
Escovo os dentes, faço meu lanche, visto minha roupa, passo desodorante, tranco a porta, confirmo a trancada, fecho o portão, confirmo a trancada.
Pego o ônibus, dou "bons dias" desconhecidos e inreflexivos, chego ao trabalho, dou "bons dias" pensando no "até amanhã".
Sento, levanto, atendo, converso, vendo, varro, limpo, organizo, telefono, vou ao banco, e na volta deste sento num banco, fumo um cigarro, me sinto livre, volto ao trabalho, onde repito até as inconveniências, dou "até amanhã" chateado com os "bons dias" do dia seguinte.
Chego em casa, abro o portã, fecho o portão, abro a porta, fecho a porta, tomo banho, faço a barba, como alguma coisa, leio um livro, assisto a um filme, deito, fecho os olhos... durmo.
Abro a porta, fecho a porta, abro o portão, fecho o portão. A preocupação com a tranca é inexistente. Pego o ônibus, dou "bons dias" satisfeitos, reflexivos, prazerosos e sinceros. Todos respondem, uns com mais, outros com menos, mas todos com alegria.
Sento levanto, descanso. Sou reconhecido e valorizado. Todos são normais, as ruas são espaçosas, as bolsas são expostas, os relógios são de pulso, o banco da praça é mais valorizado que qualquer outra espécie de banco. O negro é negro, o branco é branco, e a criança... apenas criança. O amor é sincero, a moral e a ética reinam, o etnocentrimo é calado, a cultura prevalece.
Chego em casa, a televisão já está ligada em alto volume. Abro os olhos. De volta à realidade.
Versatilidade

Eu sou o que quero para mim.
Eu sou o que querem que eu seja
Eu sou aquele que falta muito para ser algo,
Eu sou aquele que já fez tanto que já é muito,
Eu sou a melancolia em pessoa
Eu sou a alegria que entoa cantos de alegria
Eu sou poético, hematopoético, caquético, hermético, médico
Eu sou figura retorcida pelas mentes abstratas das pessoas inexistentes
Eu sou um complexo de incógnitas
Eu sou Feliz, triste, espontâneo, introspectivo, bonito, feio
Eu sou o que interpretam que eu seja.
Eu sou 6 bilhões de 'eu´s'.
À Procra do Meu "eu"

Quero saber quem eu sou
Como é o meu "eu"
Por isso, páro em frente ao espelho
Na esperança de ver minha vida refletida
Junto à minha imagem.
Cabisbaixo, pego no papel e no lápis
E agora pretendo escrever o que sou eu
A conslusão é triste e subjetiva...
Ao invés de metáforas e momentos
Sou um cara que procura num simples espelho
Toda a vida que já vivi.

Monday, July 03, 2006

Apelo contra Fome

Fome... palavra pequena, significados diversos. Para os ricos, fome é mera conseqüência da falta de tempo, rapidamente saciada num belo restaurante japonês. Para os pobres, estúpida conseqüência da falta de vergonha da humanidade como um todo, principalmente daqueles que nos governam. Mas se pararmos para pensar, analisar e nos autocriticar, chegaremos a uma conclusão tão imunda quanto à dos pensamentos neoliberais que governam nosso planeta.

Josué de Castro, pernambucano, médico, estudioso da nutrição humana, sociólogo, geógrafo, filósofo e político. Belo currículo para uma bela personalidade brasileira. Mas a principal atribuição que será dada a ele durante o futuro incerto da humanidade é sua formação humanista. Mostrou ao Brasil que tínhamos famintos. Mostrou ao mundo tínhamos fome. Se mostrar causasse impacto, teria alcançado facilmente seus objetivos. Mais que isso, precisou mostrar e correr atrás de respostas, de atitudes. Por isso, foi exilado. Mesmo de longe, continuou lutando.

Josué de Castro mostrou para a humanidade o que estava à nossa frente e não queríamos ver. Desatou nossos olhos para um mundo desigual, injusto e miserável. E mais que isso, provou que não era falta de comida que levava à fome. Contrariando a teoria malthusiana, Josué de Castro mostrou que passávamos fome por irresponsabilidade política. Foi o primeiro passo.

Passaram-se décadas, e ainda hoje a situação continua incerta. Fome: o que nós podemos fazer para mudarmos essa realidade? Aqui entra a conclusão que já foi afirmada no primeiro parágrafo. A fome é uma conseqüência de uma sociedade capitalista neoliberal, que como tal faz com que seres humanos se tornem humanóides uns para com os outros e transforma a vida, que deveria correr normalmente em paz e igualdade, em uma corrida pela sobrevivência própria, meramente própria. Temos sim culpa da fome no mundo a partir do momento que não fazemos nada para mudarmos a situação. Pensamentos do tipo “não sou culpado pela fome no mundo” é uma conseqüência de um sistema que engana, destrói, corrompe, mata. De maneira bastante sucinta, podemos concluir que se o capitalismo gera fome e nós alimentamos o capitalismo, oras, geramos fome. Se não podemos com o capitalismo, lutemos para que, pelo menos seus efeitos sejam menos devastadores.

Critiquemos o nazismo. Matavam apenas por matar. Por achar que judeus, homossexuais e negros não eram espécie humana. Critiquemos sim, mas não sejamos hipócritas. Os nazistas tinham plena certeza que estavam matando seres não humanos. Não desmerecem as críticas por esse fato, mas de certa forma, eles não estavam sendo hipócritas: expunham seu pensamento, por mais absurdo que para nós parecesse, e agiam em conformidade com sua ideologia. Agora nós sim somos hipócritas, pois sabemos que os que estão morrendo de fome são seres humanos. O que para muitos, não muda nada.

Paramos para pensar um pouco. Imagine que fosse feita uma pesquisa de opinião pública com 100% da população mundial a partir de uma única pergunta simples e objetiva: Você gostaria que a fome no mundo acabasse? Não temos dúvidas de que a imensa e esmagadora maioria diriam-se “humanista” e conclamaria um esbelto, orgulhoso e alto “Não”, “No, I Don´t”, “Non”, “He”, “όχι”... Todas as línguas se uniriam para proclamar o “não” à fome. Aí vem a pergunta: o que falta então para que a população faça sua parte? Informação? Vontade já sabemos que não é. Vontade todos nós temos.

Temos que parar de chorar. Temos que parar de ser apenas contra o imperialismo norte-americano. Temos que parar de apenas escrever textos como esse e partir para a luta. Lutar sabendo que não é obrigação nossa apenas salvar os famintos do mundo. O objetivo da nossa luta é mais amplo. É dar dignidade tanto aos que passam fome quanto a nós mesmos.

Wednesday, May 31, 2006

Otimismo: Inimigo da Perfeição

Entrei. Bastou que me pedissem educadamente para entrar que não resisti. Me surpreendi com a categoria que me representava... eram carpinteiros sim... em voz e em coração. Me deram a chave do futuro.

Em minhas mãos a decisão de como seria o futuro... pensei então num futuro próspero para a humanidade... Todos trocando seus lanches na escola, e não apenas uns pedindo e outros negando. Todos tomando água de coco na praia... e não apenas uns bebendo e outros pedindo o facão ao dono do bar para repartir o fruto e se alimentar da massa branca de seu interior.

Imaginei também as crianças brincando em diversas tonalidades... trocando brinquedos... iguais em valor... mães conversando sobre suas crias, na sombra fresca de uma árvore... imaginei que ali estavam seguras... o pirulito na boca dos infantes seguro das mãos de bandidos atrapalhados que “deixam” as armas soprarem o sopro da morte à humanidade.

Imaginei o povo no planalto central... fazendo festa com as leis que agora se desgrudavam do fino papel e ganhavam o rumo dos planaltos, planícies, rios, morros, litorais... do Brasil... e chegava nas casas de TODOS os brasileiros... e assim aconteceria com cada país.

Imaginei o negro sorrindo... livre... imaginei o negro lutando contra a discriminação do branco... como há brancos lutando hoje, pela discriminação do negro. Essa seria a única punição aos brancos que imaginaria no futuro pelo que são hoje.

Imaginei domingos de sol, pessoas se banhando em rios limpos, pássaros se destacando na floresta, descendo até a superfície da água límpida, pescando... e o homem, apenas observando... com admiração maior do que sente hoje, quando vê pássaros enjaulados em seus próprios quintais.

Pensei também que todos teriam a oportunidade de saber ler estes escritos.

Imaginei senhoras e senhores caminhando por praias e bosques... sorrindo, rezando terços, brincando com netos em campos verdes. Imaginei corpos em todo o Mundo sendo valorizados pelo próximo... e por seus próprios donos.

Imaginei... imaginei... Pena que imaginei demais... o pedido foi negado por excesso de esforço espiritual necessário para efetuar todas as mudanças. A chave emperrou na fechadura. Outra porta deverá ser aberta. Enquanto isso, olhemos da fechadura, mesmo com a chave tendo encoberto a metade da visão.

Wednesday, March 29, 2006

O ser do “Ado”

Nasci! Fui retirado, apalpado, banhado... amamentado.
Antes disso, fui amado, adorado, paparicado.
Cresci! Fui amado, odiado, contrariado, bofeteado.
Fui beijado, zombado, renegado e maltratado.
Mas fui inusitado e aclamado, quando precisado.
Fui informado, enganado...
Fui ficando cansado. Enjoado desta vida de retardado.
Descobri que sou complicado, desarticulado.
Se sou amado, meu amor não é dado,
Se sou odiado, viro o rosto para outro lado.
Não sei ser engajado, apenas influenciado.
Em fim, meu cabelo esbranquiçado me mostra um importante dado:
Em algum tempo, não demorado,
Serei velado, enterrado, chorado, rezado...
Mas não conseguirei ser, até então, lembrado.
Pois nesta vida, não somei, fui somado.
E por isso, sou revoltado.